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A Grécia e Portugal

O artigo publicado na Foreign Affairs sobre o que realmente está a acontecer na Grécia é excelente, pois descreve com clareza aquilo que tanto suspeitamos mas não vemos tão bem. E permite comparar e perguntar se em Portugal, na Espanha, em Itália as coisas são diferentes. São – mas só em algumas coisas.  Alguns elementos do caso grego:

  • Partidos controlam totalmente as administrações públicas
  • Empresários que dependem do Estado controlam a TV e jornais, e compram influência política
  • Grupos de interesses diversos asseguram privilégios, desde pensões próprias a imunidade a proteção de carreira
  • Profissões mantêm generalizada fuga ao fisco com impunidade

Perguntamos como será no caso português. Não é fácil dizer se é igual à Grécia e na mesma medida, mas parece haver algumas diferenças:

  • Ocorreu uma “fusão” entre a elite política/administrativa e a elite económica que controla as grandes empresas.
  • Foi criado um universo de organismos satélites ao estado como reguladores, institutos e fundações que permitiu aos partidos a expansão da sua influência e carreiras
  • Os partidos usam a administração local como base de financiamento e apoio
  • A construção e urbanismo estiveram no centro da corrupção política
  • Profissões específicas como a advocacia/magistratura/juízes mantiveram privilégios, e foram mantidas ao mínimo as capacidades dos procuradores, polícia na luta anti-corrupção

É também interessante o caso espanhol, que tem como característica principal o triângulo construção/autarcas/banca mas algumas coisas específicas como os sindicatos e fundos europeus, mas não parece ser assim tão diferente – tinha apenas uma escala maior.

A questão é – se estas coisas começam a ser tão óbvias, e se os impostos alimentam esta “máquina”, porque continuam as pessoas a pagar impostos? O argumento libertário é válido quando o Estado é corrupto – se o cidadão tem a sua propriedade confiscada para alimentar não interesses públicos, mas outros interesses privados e sem sequer uma lógica de desenvolvimento ou redistribuição – mas apenas de rapina – ele tem o direito de proteger a sua propriedade. Chegamos pois a um dos novos mandamentos de um estado moderno:

Regra do Estado: Nem um tostão desperdiçado.

Enquanto o cidadão não tem esta garantia, faz bem em desconfiar do Estado.

E enquanto é o próprio chefe do governo a ter mais do que um motorista (quando não deveria ter nem um, se quer ir de carro que compre um carro e vá de carro), está violada a regra.

 

Mas o artigo conclui-se de forma ainda mais triste. Escreve-se que com a intervenção da Troika, não ocorreu nenhuma mudança fundamental. Os poderosos mantiveram a sua posição de privilégio, e a maioria das pessoas pagou pelos abusos deles. É esta amoralidade da “Toika” que é chocante. A intervenção exigia reformas, mas não quis saber de verdadeiras reformas. Desta forma, voltará a acontecer, pois o sistema que causou a crise mantém-se em pé.

Penso que seja igual em Portugal. Detrás de uma fachada de “moralização”, de “sacrifícios” estão os mesmos vultos que cobiçam cargos públicos, regalias, e carreira à custa do estado. Nada de fundamental se alterou. É por isso que todos aqueles que pensamos que é injusto, e que uma sociedade deve eliminar o privilégio e assegurar a igualdade e justiça, devemos permanecer unidos neste alerta: está tudo na mesma, ficou tudo na mesma, e temos que exigir a reforma do Estado, das instituições, da justiça, para assegurar uma modernização que coloque o poder nas mão do povo, e moralize as funções do Estado acabando com os privilégios, os interesses, o carreirismo e a corrupção.

É esta a prioridade nacional.

E estes políticos, que governam dentro deste sistema como se ele funcionasse (porque funciona para eles) não vão dizer nunca que há que mudar o sistema. Vivem dele. E aqueles que defendem a “estabilidade” das instituições, como o Presidente Cavaco Silva, erram, pois as instituições merecem ser estáveis e protegidas quando cumprem o seu dever institucional e servem o país. Mas o Banco de Portugal não serviu o país – falhou na supervisão. Defendê-lo para quê? Os governos que levaram o país à bancarrota, idem. A Assembleia de República, que falha na representação e é continuamente acusada de ser um dos centros da alta corrupção, ibidem. Há poucas escolhas: o sistema está inquinado, e não pode ser defendido. Sobretudo quando aqueles que deveriam estar a governar, a limpar e arrumar a casa, estão a gozar com a reforma do estado, como está patente no episódio do documento de reforma do estado com 3 páginas. Estão muitas coisas mal.

PGR reúnem-se em Luanda e jogam magnífico jogo da sueca

Encontro recente das Procuradorias Gerais da República dos países da CPLP.

Depois de acertar as equipas tirando à sorte com palitos, Portugal e Angola formam uma equipa, São Tomé e Brasil fazem outra, enquanto Moçambique e Timor observam a partida sentados na baía, bebendo umas Cucas e comendo uns tremoços. A Guiné-Bissau pelos vistos não tem PGR na reunião.

Logo a abrir a procuradora de Angola corta paus com trunfo, deixando o colega Brasileiro todo lixado. Três rodadas mais tarde, ela joga o três de paus, causando grande confusão dado que tinha cortado antes. Ela nega tudo, e a colega portuguesa afirma que não há provas e não está certo acusar assim.

Perante o argumento, os outros estão de acordo, e o jogo continua. Vitória clara de Portugal e Angola, que passam à final após muito esforço. No entanto o jogo é interrompido para o jantar, e não é reatado em seguida dado ter-se terminado a cimeira. Os representantes regressam aos seus países satisfeitos com a produtiva cimeira de PGR. De certeza que tudo melhorará, e rapidamente!

 

4 em 4 portugueses vítimas de bullying austeritatis

A notícia é insuficiente: nos últimos dois anos cerca de 100% dos portugueses foram vítimas de bullying sob a forma de austeridade absurda.

Com a honrosa excepção dos políticos e seus financiadores, e todos aqueles que através da política arranjaram “empregos” bem bons nas magníficas grandes empresas lusitanas.

Post scriptum: para quando a expropriação das PPP?

Bullying: uma forma de toureio em que o boi ganha.

Os voos com gente suspeita… ou como o espiado ajuda quem o espia

Uma vez mais Portugal está na ribalta. Ou na vanguarda. É uma espécie de “Borne Identity” lusitano. Se um avião quiser sobrevoar o país e se suspeitar que lá dentro viaja um suspeito de espionagem, não português, mas americano, Portugal não deixa passar. Isto na mesma semana em que se revela que os Estados Unidos andaram a espiar a Europa durante anos.

O avião portanto não passa. Mesmo que lá dentro esteja de certeza o presidente da Bolívia, e se calhar também o tal suspeito de espião. Como afinal não estava o que talvez mas estava o de certeza, o país entra no ridículo total.

Confirma-se também que para estes governantes portugueses os princípios e a lei internacional só são para cumprir quando assim permitem os “aliados”.

Que vergonha.

O que há é pobreza

Cavaco diz que não há “desestruturação social” em Portugal.

Não. O que há é mais pobreza.

(Ficamos a saber que esse era um dos objectivos: manter a “estrutura social”.)

 

A pobreza – desemprego – migração – miséria. São coisas secundárias. É preciso encontrar a coisa “positiva”, e aqui está: quanto a desestruturação, tudo corre bem. E já agora, cabe à AR a fiscalização do Governo. O que é o mesmo que dizer: a Constituição tem um sistema que não funciona e não serve o país, e o presidente sabe-o, e em vez de sugerir a mudança imediata, confia no sistema. Viva a reforma!

Uma pega com forcados?

descida

Diz o comentador professor que têm havido uma pegas no conselho de ministros e o das Finanças tem saído derrotado.

Vejamos:

Uma pega tem oito forcados e um touro. Se o Gaspar tem perdido as pegas, ou é um dos forcados, ou é o touro. E portanto anda às voltas com um tipo agarrado ao seu rabo. E daqui vai para o… matadouro.

Elegante, caro Professor Marcelo.

Mas a notícia tem alguns detalhes mais sobre o funcionamento do Conselho de Ministros. Parece que há reuniões frequentes e muita confusão. Parece que há falta de lidernça. Mas o que seria de esperar? Por acaso o presidente do Governo tem alguma experiência em algum tipo de gestão?

Seria interessante que os vídeos destas reuniões se tornassem públicos. Talvez a qualidade dos políticos melhorasse muito. É que lendo os CV dos políticos que lá estão, tenho muitas dúvidas sobre as capacidades deles…

O estado português e o estado suiço

As notícias de hoje sobre o caso “Monte Branco” começaram há vários meses.

Parece que é uma rede de lavagem de dinheiro. Escreve-se que o total pode chegar aos 1000 milhões de euros. Parece também que tudo se descobre porque alguém está a colaborar e contar tudo.

Mas se o caso se arrasta há meses, quando teremos um pedido formal de esclarecimentos de Portugal à Suiça? Os problemas diplomáticos entre a Suiça e os vizinhos, por razões sempre ligadas à ocultação de capitais, são intensos com a França (caso Bettencourt, lista Lagarde), a Alemanha, a Itália, a Grécia. Portugal deveria imediatamente chamar o embaixador Suiço e apresentar formalmente a questão: está a Suiça a albergar empresas que se dedicam a ocultar ilegalmente capitais que saem de Portugal não declarados, como alegadamente era o caso desta empresa Arcofinance que trabalha com a Banque Privee Rotschild? Adicionalmente, Portugal deveria apresentar um pedido formal à União Europeia para tomar uma posição comum sobre esta matéria.

O que temos tido é o silêncio do Governo português.

E já agora, caso tenham curiosidade sobre o Medina Carreira que está nas notícias hoje, vejam. Ele declara que os partidos tem um núcleo de corruptos…