Arquivo de etiquetas: Igreja

A fé, a ciência e o progresso

É um tema antigo, mas ainda é necessário repetir até que se torne totalmente claro: não há lugar para a religião num estado moderno. A religião promove a crença em vez da ciência. A fé em vez da lógica. Mas como diz a cantiga

A fé encontra a ciência:

  • uma é preguiçosa, a outra diligente
  • uma acomodada, a outra incómoda
  • uma sabe sem a saber, a outra sabe que não sabe
  • uma julga, a outra questiona
  • Uma conforma-se com o “mistério”, a outra é curiosa e inconformada.

Na fé reduzem-se os homens a crentes, anula-se o seu raciocínio, aceitam-se “respostas” que não são respostas, deixam-se no mistério coisas que merecem a inquiridora, curiosa e justa análise da razão.

Mas porque vem isto ao caso quando falamos do Estado? Porque a crença é a melhor aliada do aldrabão. O líder que governa com sabedoria usa a verdade, o raciocínio, a lógica para defender argumentos. Ensina os outros a pensar, pois é o pensamento que leva às melhores decisões. O outro, o que não tem a lógica do seu lado, usa a crença para defender as suas ideias, e ensina o povo a “ter fé” porque lhe serve essa falta de sentido crítico. Nos Estados Unidos, a religião continua metida dentro do discurso político. E é por isso que temos gente que nega a evolução, nega a mudança climática, com o argumento de que “não acredita”, e usa a crença como justificação para decisões que devem ser racionais.

Em Portugal, não é muito melhor. Disfarçada com um verniz republicado e laico, há muita crença dentro de muita gente política, e muita mais pelo povo fora, debaixo da sempre presente voz da igreja, que de cientista tem pouco, e democrática menos. Acabar com a ignorância, a crendice, a superstição é um passo importante na libertação de um povo. Aqueles que não se indignam com isto são os que preferem assim – preferem um povo manso, crédulo, supersticioso. Para mim, é uma das maiores vergonhas da “direita” em muitos países, usando uma artimanha de político para ganhar votos, que é a de associar as suas ideias “conservadoras” com as ideias da religião, para que os votantes não se afastem da “palavra justa” ou palavra de deus, generosamente propagada por uma Igreja que teme a inevitável redução do seu poder. A direita tem outros vícios maus, como o de dizer que é “pró-mercado” quando tende a ser protecionista e protetora dos poderes instalados, o que é o contrário de ser pró-mercado, e o de usar questões morais (aborto, homossexualidade) ou medo/ameaças externas para distrair de outros temas que importam muito mais à população. Ou o de insistir com políticas económicas erradas só porque assim está escrito no seu livro ideológico. Mas para mim, o mais hipócrita, o que merece ser sempre desvelado, é o velo da mensagem conservadora aliada à mensagem religiosa. A religião não tem lugar num Estado moderno, e nenhum político moderno merece governar um povo quando nas suas palavras se misturam as falácias religiosas com os temas importantes do progresso de um país.

Notícias imaginárias

Algumas notícias que ficavam bem nesta semana:

Os jogadores da seleção uniram-se ao selecionador e aos líderes da FPF na condenação de Raul Meireles por ter cuspido num árbitro. “A falta de respeito pelo desporto não será tolerada na seleção de Portugal, que é uma equipa séria”, disseram em uníssono.

A Ordem dos Médicos mostrou-se envergonhada com as notícias de que há dezenas de cirurgiões que não fazem cirurgias. “Ao início tivémos vontade de afirmar que a culpa era dos administradores hospitalares, que também não fazem cirurgias. Mas depois saíram estas notícias de que médicos andavam a fazer prescrições falsas, e tivémos vergonha”

A Igreja afirmou que fará um rigorosíssimo inquérito aos casos de pedofilia, assegurando que não se voltará a repetir caso algum. “Ao início tivémos vontade de dizer que era coisa pouca, isolada e sem importância. Mas quando um dos nossos bispos confirmou que sabia de casos desde há muito tempo, tivémos vergonha e decidimos enfrentar as coisas à séria”. Esta notícia veio logo a seguir ao indulto ao mordomo do Vaticano, que veio acompanhado de ordens de investigação imediatas para tudo o que fora revelado nos documentos que ele divulgou.

O presidente do BES demitiu-se do cargo, afirmando-se envergonhado por ter dinheiro no estrangeiro que não estava declarado. “Ao princípio tive vontade de pagar e deixar morrer o caso; mas depois percebi que era uma vergonha e decidi dar o exemplo, para que nunca se repita coisa tão vergonhosa.

Há ainda rumores de que o Presidente da República, apanhado nesta onda de honestidade, venha a declarar que a sua participação nos esquemas de ações do BPN é uma vergonha, apresentando também a sua demissão imediata”. Consta que se decidiu após ver como o primeiro ministro destituíra o seu ministro Relvas por inadequadas qualificações e comportamento duvidoso relacionado com as secretas – antes de se demitir devido ao seu passado “empresarial” baseado em fundos comunitários para atividades sem qualquer valor para a sociedade.