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O porquê de escrever

Ocorre por vezes a pergunta “mas porquê escrever”?

Quando se tem uma carreira, relações comerciais, há muita gente que hesita em tornar públicas as suas opiniões, sobretudo se estas forem sobre temas polémicos, política, religião, sociedade, relações internacionais. É como se o papel de gestor limitasse a cidadania.

Eu penso o contrário. Somos cidadãos. Escolhemos a nossa forma de expressão. O gestor não o é menos. Pode confundir-se a sua posição e a da companhia? Pode. É um representante da companhia? É – às vezes. Mas se as coisas forem claras entre ele e a empresa, e se houver uma política de empresa clara ou um acordo entre a pessoa e a companhia, está resolvido. E mais – pela posição que ocupam, muitos gestores têm influência numa sociedade. Caso tenham ideias, valores que querem promover, os líderes empresariais deveriam saber usar a sua posição para lutar por esses ideais. A gestão é uma atividade nobre que nada deve temer a outras profissões.

Finalmente, poderíamos fazer uma reflexão sobre o silêncio dos gestores. Porque não têm visibilidade, em Portugal, os gestores, os líderes de empresas? Porque não há pessoas de referência fora do círculo político? Porque são tão raras as declarações públicas, as posições de alguns dos nossos mais relevantes industriais? Porque nada têm a dizer? Porque se ocupam tanto com o seu trabalho que a sociedade lhes escapa? Não é claro para mim, e não quero pensar que abraçado com o silêncio se encontre o medo de dizer alguma coisa. Porque isso é a medida do peso das influências.

Starbucks ou o início de uma nova era no capitalismo global

Talvez esteja demasiado otimista, mas penso que o que se passa no Reino Unido com o Starbucks é um bom exemplo de uma nova fase que podemos chamar de transparência global. O mundo das corporations que apenas maximizam o lucro e nada mais (doutrina de Friedman) vai terminando pouco a pouco. Esta é uma das melhores consequências da crise financeira global, e da série de escândalos empresariais que se têm seguido. E se é certo que a maioria destes escândalos tem ocorrido no sector financeiro, parece que a Starbucks move muito mais antagonismo que, por exemplo, o Morgan Stanley ou a BP. Talvez porque o público reage mais a empresas que usa todos os dias.

O tema em discussão é o da “otimização fiscal”, que as empresas usam para evitar pagar impostos. Um embuste. Se uma empresa quer fazer negócio num país, tem que pagar impostos. Truques como os preços de transferência interna ou exportação dos lucros são velhos, e é uma vergonha que sejam expostas desta forma companhias que têm o apreço dos seus clientes, como a Google ou a Starbucks. Mas é bem feito. Paguem impostos.

Se a tendência continua, temos um grande impulso à eliminação das fugas “legítimas” de capitais. A localização de empresas em determinados países (Irlanda, Luxemburgo, Suiça) por razões fiscais não tem lógica nenhuma quando a maior parte das operações são em outros países. E finalmente, não tem lógica que os auditores continuem a assinar as contas destas empresas sem se pronunciar sobre as suas “construções fiscais”. Talvez porque as auditoras são muitas vezes as consultoras fiscais que montam estes esquemas. Mas que têm que acabar. E é bom quando acabam pela porta mais democrática da economia de mercado: os consumidores. Porque isso indica que só poderá ficar no mercado quem mantém a ética fiscal – os aldrabões não vendem.

Tem havido bastante discussão se estamos na era pós-capitalista. Um relatório recente na Alemanha mostra que os valores predominantes na sociedade já mudaram e podemos classificar a era atual como “sociedade sustentável”. São boas notícias, e que devemos repetir.

Os drones da CIA, a Apple, e os dilemas éticos das empresas

Parece que a Apple não aprova uma aplicação que acompanha em tempo real os ataques efectuados com os drones da CIA. A ideia da aplicação é recolher dados sobre os ataques efectuados com esta tecnologia e colocá-los sobre um mapa em tempo real. Informação, partilhada. Razão para a rejeição: “Conteúdo desaconselhável”.

Comecemos por espreitar a missão da Apple:

Apple designs Macs, the best personal computers in the world, along with OS X, iLife, iWork and professional software. Apple leads the digital music revolution with its iPods and iTunes online store. Apple has reinvented the mobile phone with its revolutionary iPhone and App Store, and is defining the future of mobile media and computing devices with iPad.

Uma companhia cuja missão é fazer os seus produtos. Com o alcance que a tecnologia deles tem, vão ter dilemas éticos muito depressa. Como o que acima se descreve: se nós somos apenas fabricantes de tecnologia e queremos “definir o futuro das tecnologias de computação”, como podemos rejeitar aplicações que nada mais fazem do que partilhar informação que está disponível, mesmo que seja informação sobre um tema tão delicado como a guerra?

Mas comparemos com o tema da pornografia: se uma aplicação se propõe partilhar imagens que já estão disponíveis, deve ser bloqueada? Decide-se nas regras do serviço. Se a iTunes store aceita pornografia, ok. Se não aceita, ok. Quem procura o conteúdo, vai buscar por outra via, e não há polémica.

E não será o mesmo sobre conteúdos militares? Se as regras do serviço excluem, não deverá haver polémica.

Até aqui tudo bem, com uma pequena ressalva: quando um serviço tem posição dominante, a responsabilidade na rejeição parece aumentar. Se há concorrentes ao AppMarket, os clientes que acham que faltam conteúdos podem sempre buscar alternativas. Como se diz na notícia, o Android market pode ser uma opção. No entanto, quando quem controla o media channel tem poder dominante, a rejeição de conteúdos passa a tema controverso. Por exemplo, na China com o controlo dos conteúdos na internet. E a indignação com a Apple neste caso vem de todos os que sentem que a empresa, tendo já uma dimensão tão grande, passa a ter responsabilidade maior na censura de determinados temas. Ou seja: passa a ter responsabilidade social, que vai muito além de “vender máquinas”.