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Índice de desenvolvimento humano ajustado à desigualdade – Portugal na posição 41

Uma das coisas tristes sobre o nosso país é a estagnação no desenvolvimento económico e social. Em termos de desenvolvimento económico, se medido pelo Rendimento Interno Bruto (não uso PNB per capita devido a efeito qatar/macau, ver mais aqui), estamos na posição 35. E continuamos a divergir da Europa mais rica há mais de 10 anos.

Mas o pior é que em termos de desenvolvimento humano, medido pelo índice de desenvolvimento humano ajustado para a desigualdade (nações unidas), estamos na posição 41. Ou seja – temos um desenvolvimento social abaixo do que o nosso nível económico justificaria. E dado o nosso alto nível de desigualdade, tudo se agrava.

Valores portugueses: desenvolvimento, solidariedade, tolerância. Só esta dá jeito ao ler estes números. Que vergonha.

Para quem tem dúvidas que o modelo atual de gestão do país não funciona, estes são os números. Não está a funcionar. Temos um país que falha no seu desenvolvimento, e falha na distribuição da sua riqueza.

Muito mais complexo é encontrar um formato que funcione, e uma forma de mudar as coisas.

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Instituições extractivas em Portugal

No “Why Nations Fail” apresenta-se a tese de que num país instituições políticas extractivas não podem coexistir com instituições económicas inclusivas, e vice-versa. O poder político e o poder económico alinham-se nos interesses, e se o interesse é extrair valor para si (mas não tanto para os demais), quer os políticos quer as grandes empresas o farão.

Isto para que tenhamos claro: Portugal está neste nível.

Temos políticos que ocupam as instituições com interesses muito menos que altruístas, e temos empresas que fazem o mesmo, em coordenação próxima com os políticos. Os casos recentes são mais do que a prova.

Vejamos a lista das 25 maiores empresas nacionais:

  1. Petróleos de Portugal – Petrogal: Próxima do poder político
  2. EDP Serviço Universal: Próxima do poder político
  3. Pingo-Doce: Distribuição, parece ser um mundo à parte
  4. Modelo Continente: Distribuição, parece ser um mundo à parte
  5. EDP Distribuição: Próxima do poder político
  6. Galp – Gás Natural: Próxima do poder político
  7. Transportes Aéreos Portugueses: Próxima do poder político
  8. EDP – energias de Portugal: Próxima do poder político
  9. Repsol Portuguesa – Espanhola
  10. Volkswagen Autoeuropa – Alemã
  11. Wellax Food Logistics?
  12. PT Comunicações: É o que se viu
  13. EP – Estradas de Portugal: No comment
  14. BP Portugal: Inglesa
  15. Cepsa – Espanhola
  16. EDP – Gestão da Produção de Energia: No comment
  17. Auchan Portugal Hipermercados: Distribuição
  18. Portucelsoporcel Fine Paper: como explicar a poluição em Setúbal?
  19. Vodafone Portugal – Inglesa
  20. TMN – Isto era a PT certo?
  21. EDP Comercial – Mas quantas empresas tem esta EDP? Será para ter mais CEO?
  22. Mota – engil: Ah, os construtores!
  23. Endesa Energia S.A. Espanhois
  24. Continental Mabor – Indústria de Pneus: Pneus? Aqui há gato.
  25. Dia Portugal – Distribuição

E portanto: PT, EDP, GALP, Mota Engil. Por uma razão qualquer, nesta lista não há bancos, embora já se saiba que os bancos são (eram) demasiado próximos dos políticos. O que parece haver é este mundo da distribuição que vive mais ou menos à parte – embora mereça um comentário sobre as suas relações com o poder autárquico.

O artigo do Jornal i descreve as relações extractivas com muita clareza:

  • Construção (sobretudo PPP)
  • Energia
  • Banca
  • Serviços jurídicos
  • Fundações privadas que vivem de fundos públicos

O problema não é o diagnóstico. Está mais do que feito. Sempre foi assim. O problema é encontrar a cura. Quando temos toda uma elite económica e política centrada nesta extração, como pode a justiça prevalecer?

Os mesmos autores (Acemoglu and Robinson) dão-nos uma esperança. Eles notam que na história mundial a grande maioria das instituições foram extractivas, e que instituições inclusivas foram introduzidas só recentemente – talvez seja só uma questão de tempo? Não tendo grandes choques, a ideia de que pequenas mudanças em algumas instituições poderiam ajudar é tão fraca…

E que tal pedir a luta activa anti-corrupção comandada pelas instituições europeias? Esse sim, seria o melhor “fundo comunitário” que poderíamos receber…

Políticas económicas

Entretanto o mundo convence-se de como a política económica pós-crise foi um fracasso. Os políticos estão reféns das suas ideologias, não compreendem economia. Há demasiados “economistas” que o que defendem é ideologia em vez de ciência. É tudo muito triste.

Para uma leitura do que se passou desde 2008: http://www.themoneyillusion.com/?p=27795

A tese é de que o Banco Central Europeu disparou o tiro que causou não uma, mas duas recessões, ao subir as taxas de juro em 2008 e 2012. Onde estão as responsabilidades? Tal como no banco de Portugal não há responsáveis pelo fracasso regulador, no banco central europeu não há responsáveis pelas péssimas decisões tomadas. Um fundamentalismo “anti-inflação” que não tem pés nem cabeça, mas que tem terríveis resultados nas vidas de milhões de pessoas.

Responsáveis? Pffff

Quanto a Portugal – é um bom aluno de uma péssima política. E persiste.

(o que parece não ser um problema para alguns)

O que há é pobreza

Cavaco diz que não há “desestruturação social” em Portugal.

Não. O que há é mais pobreza.

(Ficamos a saber que esse era um dos objectivos: manter a “estrutura social”.)

 

A pobreza – desemprego – migração – miséria. São coisas secundárias. É preciso encontrar a coisa “positiva”, e aqui está: quanto a desestruturação, tudo corre bem. E já agora, cabe à AR a fiscalização do Governo. O que é o mesmo que dizer: a Constituição tem um sistema que não funciona e não serve o país, e o presidente sabe-o, e em vez de sugerir a mudança imediata, confia no sistema. Viva a reforma!

Afinal também temos “marretas”

Já sabíamos que:

  • Para a Goldman Sachs, o “cliente” que comprava os seus “produtos evenenados” seria um muppet, ou um marreta – um tanso que apostava e perdia quando a GS apostava e ganhava
  • A Golman Sachs esteve envolvida numa operação secreta com a Grécia antes do início da crise grega, num negócio desastroso que custaria aos contribuintes gregos aproximandamente 3 mil milhões de euros. Na Grécia também havia marretas.

E agora aprendemos que em Portugal também os há. Compravam estes “produtos” ao Goldman, mas também à JP Morgan, Deutsche Bank (estão sempre no top, estes) e BNP Paribas – o que me admira é que a indignação não seja maior.

Que maravilha. A alta finança no seu melhor. O “gestor financeiro” da empresa pública compra. A “grande banca internacional” vende. Produtos. Sofisticados. E o contribuinte, paga.

Sou um sonhador, ou isto está mal?

E voltando ao tema da negociação com a Troika: mas quando é que os países deixaram de apontar o dedo aos bancos que tanto lucraram nos negócios que levaram estes estados à ruína? E quando é que os tribunais vão começar a tornar isto claro? Há três partes: Banca, Estado (seus representantes) e Contribuintes. Quem lucrou, e quem perdeu? Quem é inocente e quem é culpado?

No meu entender, o voto legitima o governante para servir o estado em nome do cidadão, mas não para arruinar o estado. Há um argumento de que “se votaram neles, a culpa é vossa”, mas não vinga. Votaram neles para governação legítica – não para a ruína do estado, e muito menos às mãos de terceiros.

E não é ainda mais ridículo que a mesma mão que te torceu o pescoço te vem depois emprestar para te ajudar a sair da crise?

Starbucks ou o início de uma nova era no capitalismo global

Talvez esteja demasiado otimista, mas penso que o que se passa no Reino Unido com o Starbucks é um bom exemplo de uma nova fase que podemos chamar de transparência global. O mundo das corporations que apenas maximizam o lucro e nada mais (doutrina de Friedman) vai terminando pouco a pouco. Esta é uma das melhores consequências da crise financeira global, e da série de escândalos empresariais que se têm seguido. E se é certo que a maioria destes escândalos tem ocorrido no sector financeiro, parece que a Starbucks move muito mais antagonismo que, por exemplo, o Morgan Stanley ou a BP. Talvez porque o público reage mais a empresas que usa todos os dias.

O tema em discussão é o da “otimização fiscal”, que as empresas usam para evitar pagar impostos. Um embuste. Se uma empresa quer fazer negócio num país, tem que pagar impostos. Truques como os preços de transferência interna ou exportação dos lucros são velhos, e é uma vergonha que sejam expostas desta forma companhias que têm o apreço dos seus clientes, como a Google ou a Starbucks. Mas é bem feito. Paguem impostos.

Se a tendência continua, temos um grande impulso à eliminação das fugas “legítimas” de capitais. A localização de empresas em determinados países (Irlanda, Luxemburgo, Suiça) por razões fiscais não tem lógica nenhuma quando a maior parte das operações são em outros países. E finalmente, não tem lógica que os auditores continuem a assinar as contas destas empresas sem se pronunciar sobre as suas “construções fiscais”. Talvez porque as auditoras são muitas vezes as consultoras fiscais que montam estes esquemas. Mas que têm que acabar. E é bom quando acabam pela porta mais democrática da economia de mercado: os consumidores. Porque isso indica que só poderá ficar no mercado quem mantém a ética fiscal – os aldrabões não vendem.

Tem havido bastante discussão se estamos na era pós-capitalista. Um relatório recente na Alemanha mostra que os valores predominantes na sociedade já mudaram e podemos classificar a era atual como “sociedade sustentável”. São boas notícias, e que devemos repetir.

Unicef – miséria infantil

http://www.unicef.org/media/media_62521.html

Quando os números não mentem: Portugal tem uma das mais elevadas taxas de miséria infantil entre os países “desevolvidos”. 27% das crianças portuguesas sofrem a falta de bens essenciais. É o fracasso do modelo de desenvolvimento. Não se trata de “trocar o bife pela sopa”. Trata-se de miséria. Real. Infantil.
Está na hora de exigir aos governantes uma resposta a este assunto.

Definir métricas transparentes e responsabilização total pelos resultados. O “country scorecard”. Não podemos tem um país que se gaba de ter reduzido a mortalidade infantil a níveis de topo para depois ter tanta miséria infantil.

Algumas ideias para o dashboard:

  • Rendimento mediano per capita
  • Indicador geral da saúde da população incluído obesidade e prática de desportos e consumo de álcool e tabaco
  • Miséria infantil
  • Participação social em projectos voluntários
  • Resultados escolares em comparações internacionais
  • Transparência (total visibilidade sobre a riqueza de todos os ocupantes de cargos públicos ou equiparados)

E os governantes passam a ser responsáveis pelos resultados. Se não têm resposta para problemas como este – a miséria infantil, caramba!! – RUA. E sem direito nem a pensões vitalícias nem a posições em empresas públicas, nem a contratos com quaisquer dinheiros públicos. Ou seja: políticos no desemprego, uma espécie jamais vista na nosa pequena plutocracia.