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Índice de desenvolvimento humano ajustado à desigualdade – Portugal na posição 41

Uma das coisas tristes sobre o nosso país é a estagnação no desenvolvimento económico e social. Em termos de desenvolvimento económico, se medido pelo Rendimento Interno Bruto (não uso PNB per capita devido a efeito qatar/macau, ver mais aqui), estamos na posição 35. E continuamos a divergir da Europa mais rica há mais de 10 anos.

Mas o pior é que em termos de desenvolvimento humano, medido pelo índice de desenvolvimento humano ajustado para a desigualdade (nações unidas), estamos na posição 41. Ou seja – temos um desenvolvimento social abaixo do que o nosso nível económico justificaria. E dado o nosso alto nível de desigualdade, tudo se agrava.

Valores portugueses: desenvolvimento, solidariedade, tolerância. Só esta dá jeito ao ler estes números. Que vergonha.

Para quem tem dúvidas que o modelo atual de gestão do país não funciona, estes são os números. Não está a funcionar. Temos um país que falha no seu desenvolvimento, e falha na distribuição da sua riqueza.

Muito mais complexo é encontrar um formato que funcione, e uma forma de mudar as coisas.

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Piketty ou a desigualdade

Escreve-se no observador sobre o livro de Piketty “Capital no século XXI”, talvez porque está agora publicado em português. Aquilo que tem graça é a menção à “escola austríaca” e que “o debate se vai iniciar”, como se o debate não estivesse em curso há anos.

É um artigo de opinião disfarçado de crítica ao livro – talvez porque quem escreve não tenha nem 1% do curriculum de Piketty. Não era melhor o observador traduzir as críticas de Stiglitz, Krugman, etc?

E como vai este artigo de opinião? Começa com uma conversa sobre a “insatisfação dos pobres” que soa a “mas porque não estão contentes os pobres?” usando a ideia da comparação social como fonte de insatisfação. Precisamente. E mais – na base desse comportamento estão princípios psicológicos de auto-valor e auto-satisfação que não “apareceram” recentemente, sempre existiram.

Mas a desigualdade tem outras implicações que o autor, pelos vistos, desconhece. Ameaça a justiça numa sociedade. Quando  a riqueza está concentrada e não há mecanismos para redistribuição, o seu poder económico mistura-se com o poder político. Esta minoria, porque não ganhou – herdou – a riqueza, não aprecia o mérito nem tem nada a ganhar com a redistribuição nem as oportunidades, e torna-se avessa à mobilidade social. A “Sociedade de herdeiros” é uma enorme ameaça à democracia. E mais: Piketty acaba por escrever que isto já aconteceu:

“If democracy is someday to regain control of capitalism, it must start by recognising that the institutions in which democracy and capitalism are embodied need to be reinvented over and over again” Página 570, edição inglesa.

A democracia perdeu o controlo do capitalismo.

A desigualdade tem também uma faceta de injustiça no sentido de Rawls – de que todos têm uma probabilidade igual de ter êxito na vida, independentemente da família em que nasçam. Se uma sociedade não assegura que esta probabilidade é igual, não é uma sociedade justa. Uma sociedade controlada pela minoria ultra-rica não tem qualquer incentivo na redistribuição ou igualdade de oportunidades, e na verdade teme-os, pois teme que entre as massas haja gente com mais capacidade e mérito que eles mesmos, que herdaram o privilégio sem o terem adquirido. Assegurar a redistribuição é do interesse da justiça, e do interesse da democracia.

PS: algumas reações em Portugal: Blog Ladrões de Bicicletas; Sustentabilidade é ação (que não diz muito); Inflexão (bom post sobre o tema); Interesse privado, ação pública (com links para os estrangeiros); e o insurgente (ideologia da treta).

Revisitando os índices de felicidade

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Publicado em 2012, o relatório sobre a felicidade por país coloca Portugal numa posição modesta.

Mas sobretudo ajuda a matar alguns dos mitos ideológicos mais frequentes. Vejamos alguns dos dados:

  • Todos os países no top 10 são sociais democracias com elevada cobertura de segurança social (página 41)
  • O rendimento tem relação positiva com a felicidade; mas a boa saúde, e sobretudo o não estar desempregado ou separado têm um impacto bem maior. (página 85)

Quando as democracias alargaram os votos à maioria da população, esta tem preferido governos mais progressistas que introduzem elementos de proteção social. Os poucos que se lhes opõem são os que não precisam, que eram precisamente os que detinham o poder. Hoje há uma ofensiva, sobretudo entre os “republicanos” nos EUA e alguns dos seus seguidores em outros países (chamemos-lhes “thatcheristas”, por exemplo) para defender políticas que reduzem a proteção social, em nome da “competitividade”. São em geral argumentos pouco convincentes, pois muitos dos países que têm vasta cobertura social são ao mesmo tempo muito competitivos (Holanda, Dinamarca, etc) e como se vê pelo relatório, proporcionam à população boas possibilidades de uma vida feliz.

Finalmente, o relatório dá pistas sobre os elementos de responsabilização para um bom governo:

“The first lesson of happiness research is that GDP is a valuable goal but that other things also matter greatly. So GDP should not be pursued to the point where:
• economic stability is imperiled
• community cohesion is destroyed
• the weak lose their dignity or place in the economy
• ethical standards are sacrificed, or
• the environment, including the climate, is put at risk.
GDP is important but not all that is important. This is especially true in developed countries, where most or all of the population has living standards far above basic material needs.” (end quote)

No caso português, não é claro que se possa dizer que o crescimento económico é secundário. Pelo contrário: é fundamental. Mas é também claro que a redução da proteção social não ajudará à melhoria da satisfação com a vida, pois em princípio aumentará o que já é um dos mais elevados índices de desigualdade entre os países desenvolvidos.