Piketty ou a desigualdade

Escreve-se no observador sobre o livro de Piketty “Capital no século XXI”, talvez porque está agora publicado em português. Aquilo que tem graça é a menção à “escola austríaca” e que “o debate se vai iniciar”, como se o debate não estivesse em curso há anos.

É um artigo de opinião disfarçado de crítica ao livro – talvez porque quem escreve não tenha nem 1% do curriculum de Piketty. Não era melhor o observador traduzir as críticas de Stiglitz, Krugman, etc?

E como vai este artigo de opinião? Começa com uma conversa sobre a “insatisfação dos pobres” que soa a “mas porque não estão contentes os pobres?” usando a ideia da comparação social como fonte de insatisfação. Precisamente. E mais – na base desse comportamento estão princípios psicológicos de auto-valor e auto-satisfação que não “apareceram” recentemente, sempre existiram.

Mas a desigualdade tem outras implicações que o autor, pelos vistos, desconhece. Ameaça a justiça numa sociedade. Quando  a riqueza está concentrada e não há mecanismos para redistribuição, o seu poder económico mistura-se com o poder político. Esta minoria, porque não ganhou – herdou – a riqueza, não aprecia o mérito nem tem nada a ganhar com a redistribuição nem as oportunidades, e torna-se avessa à mobilidade social. A “Sociedade de herdeiros” é uma enorme ameaça à democracia. E mais: Piketty acaba por escrever que isto já aconteceu:

“If democracy is someday to regain control of capitalism, it must start by recognising that the institutions in which democracy and capitalism are embodied need to be reinvented over and over again” Página 570, edição inglesa.

A democracia perdeu o controlo do capitalismo.

A desigualdade tem também uma faceta de injustiça no sentido de Rawls – de que todos têm uma probabilidade igual de ter êxito na vida, independentemente da família em que nasçam. Se uma sociedade não assegura que esta probabilidade é igual, não é uma sociedade justa. Uma sociedade controlada pela minoria ultra-rica não tem qualquer incentivo na redistribuição ou igualdade de oportunidades, e na verdade teme-os, pois teme que entre as massas haja gente com mais capacidade e mérito que eles mesmos, que herdaram o privilégio sem o terem adquirido. Assegurar a redistribuição é do interesse da justiça, e do interesse da democracia.

PS: algumas reações em Portugal: Blog Ladrões de Bicicletas; Sustentabilidade é ação (que não diz muito); Inflexão (bom post sobre o tema); Interesse privado, ação pública (com links para os estrangeiros); e o insurgente (ideologia da treta).

Instituições extractivas em Portugal

No “Why Nations Fail” apresenta-se a tese de que num país instituições políticas extractivas não podem coexistir com instituições económicas inclusivas, e vice-versa. O poder político e o poder económico alinham-se nos interesses, e se o interesse é extrair valor para si (mas não tanto para os demais), quer os políticos quer as grandes empresas o farão.

Isto para que tenhamos claro: Portugal está neste nível.

Temos políticos que ocupam as instituições com interesses muito menos que altruístas, e temos empresas que fazem o mesmo, em coordenação próxima com os políticos. Os casos recentes são mais do que a prova.

Vejamos a lista das 25 maiores empresas nacionais:

  1. Petróleos de Portugal – Petrogal: Próxima do poder político
  2. EDP Serviço Universal: Próxima do poder político
  3. Pingo-Doce: Distribuição, parece ser um mundo à parte
  4. Modelo Continente: Distribuição, parece ser um mundo à parte
  5. EDP Distribuição: Próxima do poder político
  6. Galp – Gás Natural: Próxima do poder político
  7. Transportes Aéreos Portugueses: Próxima do poder político
  8. EDP – energias de Portugal: Próxima do poder político
  9. Repsol Portuguesa – Espanhola
  10. Volkswagen Autoeuropa – Alemã
  11. Wellax Food Logistics?
  12. PT Comunicações: É o que se viu
  13. EP – Estradas de Portugal: No comment
  14. BP Portugal: Inglesa
  15. Cepsa – Espanhola
  16. EDP – Gestão da Produção de Energia: No comment
  17. Auchan Portugal Hipermercados: Distribuição
  18. Portucelsoporcel Fine Paper: como explicar a poluição em Setúbal?
  19. Vodafone Portugal – Inglesa
  20. TMN – Isto era a PT certo?
  21. EDP Comercial – Mas quantas empresas tem esta EDP? Será para ter mais CEO?
  22. Mota – engil: Ah, os construtores!
  23. Endesa Energia S.A. Espanhois
  24. Continental Mabor – Indústria de Pneus: Pneus? Aqui há gato.
  25. Dia Portugal – Distribuição

E portanto: PT, EDP, GALP, Mota Engil. Por uma razão qualquer, nesta lista não há bancos, embora já se saiba que os bancos são (eram) demasiado próximos dos políticos. O que parece haver é este mundo da distribuição que vive mais ou menos à parte – embora mereça um comentário sobre as suas relações com o poder autárquico.

O artigo do Jornal i descreve as relações extractivas com muita clareza:

  • Construção (sobretudo PPP)
  • Energia
  • Banca
  • Serviços jurídicos
  • Fundações privadas que vivem de fundos públicos

O problema não é o diagnóstico. Está mais do que feito. Sempre foi assim. O problema é encontrar a cura. Quando temos toda uma elite económica e política centrada nesta extração, como pode a justiça prevalecer?

Os mesmos autores (Acemoglu and Robinson) dão-nos uma esperança. Eles notam que na história mundial a grande maioria das instituições foram extractivas, e que instituições inclusivas foram introduzidas só recentemente – talvez seja só uma questão de tempo? Não tendo grandes choques, a ideia de que pequenas mudanças em algumas instituições poderiam ajudar é tão fraca…

E que tal pedir a luta activa anti-corrupção comandada pelas instituições europeias? Esse sim, seria o melhor “fundo comunitário” que poderíamos receber…

[Notícias Impossíveis] Governo anuncia reforma do mapa de municípios

[Notícia impossível – não aconteceu e não podia ter acontecido]

O Governo anunciou esta manhã que vai reformar totalmente o mapa autárquico. As razões para a decisão são a profunda mudança demográfica que ocorreu nos últimos quarenta anos, assim como a comprovada incapacidade dos municípios em manter as finanças em ordem, e finalmente o nepotismo generalizado entre as câmaras municipais e diversos interesses locais, muitos deles com ligações aos partidos políticos.

O Primeiro-Ministro afirmou “Já que vou perder as eleições e a carreira política, faço qualquer coisa útil ao país depois desta burrada toda com a austeridade”. Comentadores interpretaram estas palavras como uma referência ao financiamento partidário, mas disseram não compreender na totalidade.

Extratos da conferência de imprensa:

Jornalista: O que vai acontecer aos autarcas excedentes?

Futuro ex-PM: As nossas informações apontam para uma vasta rede de amigos e familiares que dominam a economia lá no concelho. Não temos um único caso de ex-presidente da câmara pobre ou desempregado. Isto demonstra que são gente com capacidade.

Jornalista: Como vão ser os congressos partidários sem as “distritais”?

Futuro ex-PM: Com a globalização, as distritais tendem a perder peso e os interesses internacionais (sobretudo de países como a China, Venezuela, Angola e Brasil) aumentam de importância. Não vai haver problema.

Jornalista: Acha que se vão destapar casos de corrupção?

Futuro ex-PM: Impossível. Não há corrupção em Portugal, porque não há condenados por corrupção. É possível que ocorram casos de SUSPEITA de corrupção, mas isso não é corrupção.

Jornalista: Teme pela sua vida?

Futuro ex-PM: Recebo com frequência insultos e ameaças, quando vou às feiras. E de resto, estou habituado a gatunos e seus capangas.

Jornalista: Onde vai passar férias no próximo verão?

Futuro ex-PM: No estrangeiro.

Jornalista: Como está a correr o “desenvolvimento do interior”?

Futuro ex-PM: Temos 88% de piscinas, 74% de casas da cultura, e 65% de pistas de atletismo municipal. Quanto a aeródromos, que são polos de desenvolvimento, praticamente 100% dos funcionários estão treinados.

Jornalista: Acha que vai haver gente no interior em 2050?

Futuro ex-PM: O interior é o futuro do país, tal como o mar. É no litoral, e sobretudo nas cidades, que está o passado.

E com isto terminou e foi-se embora.

Políticas económicas

Entretanto o mundo convence-se de como a política económica pós-crise foi um fracasso. Os políticos estão reféns das suas ideologias, não compreendem economia. Há demasiados “economistas” que o que defendem é ideologia em vez de ciência. É tudo muito triste.

Para uma leitura do que se passou desde 2008: http://www.themoneyillusion.com/?p=27795

A tese é de que o Banco Central Europeu disparou o tiro que causou não uma, mas duas recessões, ao subir as taxas de juro em 2008 e 2012. Onde estão as responsabilidades? Tal como no banco de Portugal não há responsáveis pelo fracasso regulador, no banco central europeu não há responsáveis pelas péssimas decisões tomadas. Um fundamentalismo “anti-inflação” que não tem pés nem cabeça, mas que tem terríveis resultados nas vidas de milhões de pessoas.

Responsáveis? Pffff

Quanto a Portugal – é um bom aluno de uma péssima política. E persiste.

(o que parece não ser um problema para alguns)

O governo e o tribunal constitucional

Regressa o tema do “ataque ao Tribunal Constitucional“. É tarde para dizer a mesma coisa, mas é importante dizê-la: trata-se de políticos que perderam o respeito por toda a gente e não merecem os cargos que ocupam. A sua única lógica é “manter o poder”, e portanto dizem o que for preciso. Este governo usou no início a retórica do “vamos limpar o que os outros estragaram”, “vamos ser rigorosos” e por aí fora, mas revela-se que não conseguiu nenhuma das metas. Falhou em tudo. E portanto persiste nesta lengalenga de que foi o Tribuna Constitucional a limitar a sua ação, fugindo assim às críticas.

A coisa é duplamente má. Primeiro, porque se o TC tivesse deixado passar as medidas, tinha-se agravado a austeridade e a recessão, sem que se conseguisse qualquer vantagem dado que o “acesso aos mercados” se tornou possível para todos os países da periferia. O governo insiste com política económica errada, é teimoso. E o TC bloqueia a teimosia, e o Governo culpa o TC.

O país assiste a este triste show de fuga às responsabilidades. A verdadeira explicação que o governo tem que dar é o porquê em persistir com uma austeridade que toda a Europa condena, e porque acha que aqui funciona se não funcionou em lado nenhum.

Deve também explicações sobre muitas outras coisas – os SWAP, o BCP, os submarinos, e o porquê de não nacionalizar as estradas/PPP, que são obviamente contratos fraudulentos – quando nacionalizou bancos. A lógica merece reflexão: se um banco vai cair, para proteger os depositantes, acionistas e obrigacionistas, merece a pena nacionalizar. Mas para proteger os contribuintes dos maus negócios das PPP, não merece a pena. O governo, que deveria ser o primeiro a proteger o contribuinte (dado que gere o dinheiro dele) é seu pior traidor.

Tudo isto de um primeiro-ministro cuja experiência prévia era ter umas atividades com uns fundos comunitários, e tudo relativamente mal explicado.

Vai ser excelente com o Costa

A coisa mais triste com isto da política é que começamos a ver não só as misérias passadas, mas também as futuras.

Neste caso, o Costa.

Que fez a sua carreira na política e não tem qualquer prova de ser um gestor capaz, ou um líder com ideias. É mais um desses políticos.

Passou uns tempos na Câmara de Lisboa. Veja-se o que ele diz dos seus resultados numa reunião de despedida:

  • dinamismo económico significativo”
  • Lisboa é cada vez mais um destino turístico e universitário
  • em 2014, houve três milhões de dormidas nos primeiros cinco meses do ano
  • em 2014, houve um número recorde de 14 mil estudantes estrangeiros nas universidades lisboetas.
  • Houve “empreendedorismo local”
  • e a posição geográfica de Lisboa atraiu 16 novas multinacionais

Como se diz pelas redes sociais: WTF???

Nisto se resume a noção de “resultados”. Não há qualquer ideia do que é uma “scorecard“, objetivos, metas, o que correu bem e o que correu mal. Nada. É dizer uma tretas e passar à frente. É este o nível da política em Portugal.

A oposição disse que “a cidade está pior” e o PS disse que “a cidade está melhor”.

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Exemplos de como poderia ser diferente:

http://www.detroitmi.gov/DetroitDashboard.aspx

http://www.cityofchicago.org/city/en/progs/recovery_reinvest/education7.html

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Já agora, se querem ter uma ideia da diferença e do que este homem sabe, visitem os sítios da Câmara municipal de Lisboa e do município de Londres. O munícipe inglês pode fazer muitas coisas, desde reportar avarias, pedir licenças de estacionamento, ou informar-se sobre desenvolvimentos urbanísticos (ai ai ). No sítio da câmara de Lisboa pode-se… consultar a agenda de eventos, e sobretudo obter informação. Enfim.

A nova lição de Cavaco: é errado DIZER que “pode ter custos para os contribuintes”

De acordo com notícia do Público, Cavaco declarou que “é errado dizer-se que, pela via da diminuição de lucros, os contribuintes estão a suportar custos” da Caixa Geral de Depósitos (e portanto da quebra do BES).

Tem razão o sr. presidente, pelo menos uma certa razão à político: é errado DIZER que pode ter custos. É muito melhor CALAR e não dizer, que tem sido a sua constante na carreira. Passos, o mecenas, deve aprender esta lição.

Estamos ainda à espera de uma visão de futuro, uma ideia, uma contribuição para a cultura do país. Mas não. Nada. Décadas em cargos políticos, e tudo o que obtemos são estas pequenas correções técnicas, como o que pode ou não pode ter custos, ou a ideia de que o futuro de Portugal está no mar. Se tivesse dito no fundo do mar, talvez tivesse mais impacto…

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