Notícias imaginárias

Algumas notícias que ficavam bem nesta semana:

Os jogadores da seleção uniram-se ao selecionador e aos líderes da FPF na condenação de Raul Meireles por ter cuspido num árbitro. “A falta de respeito pelo desporto não será tolerada na seleção de Portugal, que é uma equipa séria”, disseram em uníssono.

A Ordem dos Médicos mostrou-se envergonhada com as notícias de que há dezenas de cirurgiões que não fazem cirurgias. “Ao início tivémos vontade de afirmar que a culpa era dos administradores hospitalares, que também não fazem cirurgias. Mas depois saíram estas notícias de que médicos andavam a fazer prescrições falsas, e tivémos vergonha”

A Igreja afirmou que fará um rigorosíssimo inquérito aos casos de pedofilia, assegurando que não se voltará a repetir caso algum. “Ao início tivémos vontade de dizer que era coisa pouca, isolada e sem importância. Mas quando um dos nossos bispos confirmou que sabia de casos desde há muito tempo, tivémos vergonha e decidimos enfrentar as coisas à séria”. Esta notícia veio logo a seguir ao indulto ao mordomo do Vaticano, que veio acompanhado de ordens de investigação imediatas para tudo o que fora revelado nos documentos que ele divulgou.

O presidente do BES demitiu-se do cargo, afirmando-se envergonhado por ter dinheiro no estrangeiro que não estava declarado. “Ao princípio tive vontade de pagar e deixar morrer o caso; mas depois percebi que era uma vergonha e decidi dar o exemplo, para que nunca se repita coisa tão vergonhosa.

Há ainda rumores de que o Presidente da República, apanhado nesta onda de honestidade, venha a declarar que a sua participação nos esquemas de ações do BPN é uma vergonha, apresentando também a sua demissão imediata”. Consta que se decidiu após ver como o primeiro ministro destituíra o seu ministro Relvas por inadequadas qualificações e comportamento duvidoso relacionado com as secretas – antes de se demitir devido ao seu passado “empresarial” baseado em fundos comunitários para atividades sem qualquer valor para a sociedade.

Afinal não era crime…

Aprendemos esta semana que Ricardo Salgado, presidente do BES, estava envolvido no caso do dinheiro escondido na Suiça.

De acordo com as notícias, declarou o dinheiro, pagou uma taxa de 7,5% e ficaram todos amigos:

Segundo o SOL apurou, o presidente do BES foi notificado e ouvido apenas na qualidade de testemunha, pois entretanto já declarou e pagou os impostos em falta relativos a esses capitais, tendo igualmente rectificado as respectivas declarações de IRS (acrescentando-lhes os valores que tinha lá fora). Fonte: SOL

Fuga ao fisco. Dinheiro não declarado. Escondido na Suiça. Presidente do BES.

Julgue quem quiser sobre a ética do banco. Para mim não há distinção entre a ética do banqueiro e a ética da instituição. O banqueiro que fugia ao fisco. Precisaria assim tanto do dinheiro? E de onde veio este dinheiro? Usou outras redes para enviar mais? Quais as motivações? Esqueceu-se de declarar?

As dúvidas são muitas, e para mim com o poder vem a responsabilidade, e a obrigação de idoneidade. Quem lidera milhares de empregados, tem que dar o exemplo. Quem é uma figura pública, um grande empresário, tem que dar o exemplo. Este também é um exemplo, mas é o errado: o de que ocultar rendimentos faz-se. Caro Ricardo Salgado: não se faz.

A lista dos que escondiam o dinheiro – o que se fará com ela?

Pelos vistos, parece que todos os que declararem e pagarem (7,5%) evitarão consequências criminais:

Este facto [o pagamento do imposto] anulou qualquer possibilidade de o MP o perseguir criminalmente, como arguido. O mesmo deverá acontecer, aliás, a todos os clientes da rede nas mesmas circunstâncias: quem regularizou capitais ocultados do Fisco no estrangeiro, nos termos descritos, não será perseguido criminalmente. Fonte: SOL

E os outros portugueses que vão pagar ainda mais impostos em Janeiro, são todos parvos? Mas onde está a praça pública para revelar este escândalo? E porque é que os jornais não dão relevância a esta notícia? Estarei a exagerar no meu juízo de que isto é uma vergonha?

Este governo que não persegue os que escondem os milhões para não pagar impostos é o mesmo que exige aos trabalhadores que paguem com o pouco que têm os vergonhosos erros dos governantes. É portanto a velha história: mão forte para os fracos, mão fraca para os fortes.

Isto dá-me uma grande revolta. Em época natalícia, como podemos esquecer esta injustiça?

Os políticos e a construção

Haverá muito que escrever sobre este tema. É o triângulo mágico: os autarcas permitem o projeto, os construtores constroem, e financiam os autarcas que permitem o projeto. Triângulo? Sim – a banca financia, garante, facilita.

Consultem aqui e aqui para algums exemplos. Há em todos os concelhos.

O meu tema é: como se resolve este tema? Algumas ideias:

  • Financiamentos aos partidos totalmente transparentes. Penas criminais para qualquer financiamento não declarado. Penas criminais para dinheiro escondido e para todos os que têm conhecimento do mesmo e não denunciaram.
  • Todo a expropriação para obra pública deve ser paga ao preço do terreno 10 anos atrás. Isto impede a reclassificação de terrenos antes da expropriação
  • No caso de um terreno reclassificado ter um novo projeto, o promotor tem que pagar ao proprietário de há 10 anos atrás o valor de mercado do terreno. Isto impede a especulação com terrenos agrícolas ou florestais (ou reserva natural) reclassificados
  • Toda a construção fora da licença é automaticamente expropriadaRigorosa lei de compatibilidades. Todo o autarca que tenha incompatibilidades (esposa, filhos, familiares, etc) é banido do cargo e da função pública, e perde todas as regalias sociais.

Que outras ideias?

Starbucks ou o início de uma nova era no capitalismo global

Talvez esteja demasiado otimista, mas penso que o que se passa no Reino Unido com o Starbucks é um bom exemplo de uma nova fase que podemos chamar de transparência global. O mundo das corporations que apenas maximizam o lucro e nada mais (doutrina de Friedman) vai terminando pouco a pouco. Esta é uma das melhores consequências da crise financeira global, e da série de escândalos empresariais que se têm seguido. E se é certo que a maioria destes escândalos tem ocorrido no sector financeiro, parece que a Starbucks move muito mais antagonismo que, por exemplo, o Morgan Stanley ou a BP. Talvez porque o público reage mais a empresas que usa todos os dias.

O tema em discussão é o da “otimização fiscal”, que as empresas usam para evitar pagar impostos. Um embuste. Se uma empresa quer fazer negócio num país, tem que pagar impostos. Truques como os preços de transferência interna ou exportação dos lucros são velhos, e é uma vergonha que sejam expostas desta forma companhias que têm o apreço dos seus clientes, como a Google ou a Starbucks. Mas é bem feito. Paguem impostos.

Se a tendência continua, temos um grande impulso à eliminação das fugas “legítimas” de capitais. A localização de empresas em determinados países (Irlanda, Luxemburgo, Suiça) por razões fiscais não tem lógica nenhuma quando a maior parte das operações são em outros países. E finalmente, não tem lógica que os auditores continuem a assinar as contas destas empresas sem se pronunciar sobre as suas “construções fiscais”. Talvez porque as auditoras são muitas vezes as consultoras fiscais que montam estes esquemas. Mas que têm que acabar. E é bom quando acabam pela porta mais democrática da economia de mercado: os consumidores. Porque isso indica que só poderá ficar no mercado quem mantém a ética fiscal – os aldrabões não vendem.

Tem havido bastante discussão se estamos na era pós-capitalista. Um relatório recente na Alemanha mostra que os valores predominantes na sociedade já mudaram e podemos classificar a era atual como “sociedade sustentável”. São boas notícias, e que devemos repetir.

O estado português e o estado suiço

As notícias de hoje sobre o caso “Monte Branco” começaram há vários meses.

Parece que é uma rede de lavagem de dinheiro. Escreve-se que o total pode chegar aos 1000 milhões de euros. Parece também que tudo se descobre porque alguém está a colaborar e contar tudo.

Mas se o caso se arrasta há meses, quando teremos um pedido formal de esclarecimentos de Portugal à Suiça? Os problemas diplomáticos entre a Suiça e os vizinhos, por razões sempre ligadas à ocultação de capitais, são intensos com a França (caso Bettencourt, lista Lagarde), a Alemanha, a Itália, a Grécia. Portugal deveria imediatamente chamar o embaixador Suiço e apresentar formalmente a questão: está a Suiça a albergar empresas que se dedicam a ocultar ilegalmente capitais que saem de Portugal não declarados, como alegadamente era o caso desta empresa Arcofinance que trabalha com a Banque Privee Rotschild? Adicionalmente, Portugal deveria apresentar um pedido formal à União Europeia para tomar uma posição comum sobre esta matéria.

O que temos tido é o silêncio do Governo português.

E já agora, caso tenham curiosidade sobre o Medina Carreira que está nas notícias hoje, vejam. Ele declara que os partidos tem um núcleo de corruptos…

Começa-se a perceber quem eram os “short-sellers” que apostavam contra o euro

Um deles revelou-se hoje: Paulson, um dos gestores de fundos americanos. Apostando continuamente na queda do Euro, perdeu milhões este ano.

Toda a notícia aqui.

É com um certo alívio que surgem notícias como esta, pois são uma espécie de vitória contra os especuladores. Se tudo correr bem, as perdas deste fundo servem de disuasão a outros fundos que fizeram o mesmo: tentaram surfar a onda da “queda do euro”… e perderam.

 

Em Espanha, polícias torturadores amnistiados

Judges angered by pardon for policemen convicted of torture | In English | EL PAÍS.

Não sei qual a visibilidade da notícia em Portugal, mas é quase chocante. Há sempre gente que acha que estas coisas são para perdoar, mas não são. A polícia tem que ser a primeira a respeitar a lei, e mais, a dar o exemplo da lei.

Parece mesmo uma vergonha. E quando os juízes se revoltam como está a acontecer, é mesmo uma vergonha.